Garantir que o direito de aprender não pare, mesmo durante um tratamento de saúde complexo, é a missão da professora Giselda Santiago Dias da Silva no Hospital Estadual de Bauru (HEB), no interior de São Paulo. Há sete anos, ela comanda as aulas da Classe Hospitalar do HEB, voltadas a pacientes de 2 a 17 anos que passam por hemodiálise ou quimioterapia.
A data desta quinta-feira (15) marca o Dia do Professor no Brasil. A celebração faz referência ao dia 15 de outubro de 1827, quando o imperador Dom Pedro I assinou o decreto imperial que instituiu o Ensino Elementar no país — a base do ensino regular do qual Giselda faz parte e que, segundo ela, não pode parar.
Em entrevista ao g1, a educadora explica que as atividades pedagógicas na unidade hospitalar são desenvolvidas e adaptadas de acordo com as condições de saúde e as possibilidades de participação de cada estudante. "Tudo é organizado de acordo com as condições clínicas do estudante, as orientações da equipe hospitalar e as possibilidades de realização das atividades naquele momento", descreve.
Os atendimentos, individuais ou em grupo, são feitos em diversas dependências do hospital, como na sala da Classe Hospitalar, na brinquedoteca da Pediatria ou nos próprios setores de Quimioterapia e Hemodiálise. Em casos mais severos, as aulas acontecem à beira do leito.
Diferente de uma escola, a didática é flexível e específica para cada caso, levando em conta as condições físicas e emocionais da criança. Entre os recursos utilizados pela docente estão leitura, contação de histórias, jogos educativos, atividades lúdicas, desenhos e propostas interdisciplinares.
"Os materiais utilizados são disponibilizados pela unidade escolar à qual pertenço, o que contribui para o desenvolvimento de um trabalho alinhado ao currículo escolar e às diretrizes da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo (Seduc)", acrescenta.
Hospital ou escola?
De acordo com a professora, a condição na qual o ensino se estabelece é a principal diferença entre administrar aulas em uma escola e em um hospital. "Na escola ou na universidade, geralmente contamos com uma rotina mais estruturada, horários definidos, turmas organizadas e um planejamento que pode ser desenvolvido de maneira contínua", afirma.
"Já no ambiente hospitalar, precisamos considerar a rotina dos procedimentos médicos, das consultas, dos exames e das internações, além das condições de saúde dos estudantes, que podem mudar a qualquer momento", diferencia.
Além disso, as atividades não seguem prazos rígidos, como no ambiente tradicional de ensino, já que nem sempre é possível concluí-las devido à rotina e ao tratamento dos pacientes. Ao mesmo tempo, os conteúdos da escola de origem de cada paciente precisam estar alinhados com a Classe Hospitalar.
"É a necessidade de manter o diálogo e a parceria com a equipe hospitalar e com a escola de origem, para que as atividades estejam alinhadas ao currículo e à trajetória escolar de cada aluno", explica.
O lado de quem leciona
Para Giselda, que é a única professora responsável pelos atendimentos da Classe Hospitalar no HEB e realiza o trabalho semanalmente, às quartas e sextas-feiras, a vivência com os estudantes a transformou enquanto profissional. "É uma experiência profundamente significativa, que transforma a maneira como enxergamos a educação e a própria vida", avalia.
"São crianças e adolescentes que, em determinado momento, precisam se afastar da rotina escolar para cuidar da saúde, mas que continuam tendo o direito de aprender, brincar, conviver e sonhar", ressalta.
Segundo a professora, o intuito é mostrar aos alunos que eles podem continuar aprendendo e sonhando, mesmo durante o diagnóstico e o tratamento. Para ela, perceber a satisfação do estudante por meio de gestos ou olhares é o que faz o dia valer a pena.
"São pequenos sinais que demonstram que aquele momento de aprendizagem fez diferença para eles. Essas experiências reforçam minha certeza de que a educação também pode oferecer acolhimento, esperança e momentos de leveza em períodos difíceis", pontua.
Educação é educação em todo lugar
Com a Classe Hospitalar, aqueles que têm as próprias vidas alteradas pelo tratamento possuem direitos semelhantes aos que não convivem com essas doenças. "A Classe Hospitalar nos mostra que a educação não se limita ao espaço físico da escola. Afinal, mesmo durante o tratamento de saúde, a criança e o adolescente continuam sendo estudantes e têm o direito de aprender", reforça.
Embora seja a única docente para uma gama de pacientes, Giselda ressalta a importância de ter uma "ficha individual" para cada estudante. A partir de um plano de aulas personalizado, a profissional tem controle da eficiência do paciente em relação aos conteúdos aprendidos no hospital. "Mesmo sendo a única professora, procuro garantir um trabalho pedagógico acolhedor, organizado e comprometido com a continuidade da escolarização", afirma.
Sonho para a Classe Hospitalar
Ao g1, a educadora expressa o desejo de que a profissão especializada para ambientes hospitalares seja reconhecida ainda mais. "É um trabalho que vai muito além de ensinar conteúdos escolares, pois envolve acolhimento, sensibilidade, dedicação e compromisso com o direito à educação de crianças e adolescentes que estão em tratamento de saúde", destaca.
Além disso, a profissional também pede por mais investimentos em materiais pedagógicos e jogos educativos, já que conta apenas com a ajuda de uma escola da região. A Escola Estadual Dr. Luiz Zuiani auxilia Giselda com materiais didáticos voltados aos ensinamentos ministrados no hospital.
"Esse suporte faz diferença no planejamento e na realização das atividades, pois me permite oferecer propostas diversificadas, despertar o interesse dos estudantes e respeitar suas necessidades individuais", finaliza.
O trabalho da Classe Hospitalar do Hospital Estadual de Bauru reforça, na prática, o direito à educação previsto para crianças e adolescentes mesmo em situação de internação, tema que ganha visibilidade no Dia do Professor. A experiência conduzida por Giselda Santiago serve de referência para o debate sobre reconhecimento profissional e investimento em materiais pedagógicos na rede pública da cidade.
