A presidente afastada da Associação dos Catadores de Materiais Recicláveis de Bauru (Ascam), Gisele Moretti, afirmou nesta quarta-feira (28/10) que não presenciou irregularidades envolvendo a prefeita Suéllen Rosim (PSD) no processo de concessão dos serviços de resíduos sólidos. Ela foi a quinta testemunha ouvida no primeiro dia de depoimentos desta etapa da Comissão Processante (CP) do Lixo, na Câmara Municipal.
A CP apura três possíveis infrações político-administrativas atribuídas à prefeita por suposta omissão, negligência e falhas na governança do edital. Investigada na Operação 'Möbius', Gisele depôs com restrições ligadas a esse procedimento. Antes da oitiva, a advogada Thaís Precioso Villela informou que uma medida cautelar da Vara de Garantias impedia a cliente de responder a perguntas sobre a Ascam e sobre os fatos apurados naquela operação. A Procuradoria Legislativa entendeu que ela poderia responder normalmente sobre os demais assuntos.
Votação da concessão e contato com Renato Purini
Questionada pelo denunciante Eduardo Borgo (Novo), Gisele confirmou que esteve na Câmara, acompanhada do marido, no dia da votação que autorizou a concessão. Disse que ficou até o encerramento da sessão porque o tema afetava diretamente o trabalho da Ascam e das cooperativas de reciclagem.
Ela também confirmou que, ao fim da sessão, encontrou Renato Purini, marido da prefeita, exonerado do cargo de secretário municipal de Governo após ter sido preso em uma das fases da Operação 'Cavalo de Troia', no dia 16 de outubro. Segundo Gisele, o então vereador a cumprimentou e houve troca de mensagens, com uma resposta dela no sentido de que a proposta iria passar e dar certo.
Gisele afirmou ser favorável ao modelo de concessão por entender que Bauru precisa avançar no tratamento dos resíduos. Ressalvou, porém, que a implantação deveria considerar as particularidades do município e a situação dos catadores e cooperativas.
Perguntada se havia tratado com a então secretária municipal de Meio Ambiente, Cilene Bordezan, sobre eventual pressão de Purini pela aprovação do projeto, negou essa interpretação. Disse que perguntou a Cilene durante a votação se a proposta seria aprovada, mas afirmou não ter presenciado pressão sobre vereadores ou sobre a Presidência da Câmara. Também negou ter visto Cilene ou Purini repassando à prefeita informações sobre o andamento da votação.
Licitação e contatos com a Estre
Outro ponto explorado por Borgo foi se Gisele sabia, antes da licitação, que a Estre seria vencedora da concessão. Ela negou. Segundo a testemunha, a empresa aparecia como concorrente competitiva por já operar o aterro usado por Bauru, em Piratininga, e atuar no transbordo dos resíduos. Gisele argumentou que não seria possível afirmar antecipadamente o resultado de uma licitação antes da abertura das propostas.
Ela também falou sobre o contato com Hamilton Libório Agle, ex-CEO da Estre, preso preventivamente no âmbito da Operação 'Cavalo de Troia'. Segundo Gisele, a relação ocorreu em atividades ligadas à discussão sobre resíduos e reciclagem. Representantes da Ascam fizeram visitas técnicas a diferentes municípios para conhecer modelos de concessão e experiências de inclusão de cooperativas, entre eles operações da Estre.
Gisele afirmou ainda que Hamilton esteve em Bauru para conhecer um ecoponto e discutir temas como organização do serviço e educação ambiental. Classificou esses contatos como institucionais e negou que tenham envolvido tratativas relacionadas à prefeita ou negociação ilícita.
Participação das cooperativas no edital
Ao tratar das discussões que antecederam a licitação, Gisele afirmou que seu principal interlocutor na Prefeitura era Cilene Bordezan, então secretária municipal do Meio Ambiente e Bem-Estar Animal, também presa preventivamente pela Operação 'Cavalo de Troia'.
Segundo ela, uma das preocupações apresentadas à gestora era a ausência, no edital, de garantia suficiente para a participação das cooperativas e associações de catadores. Gisele relatou que Cilene argumentava não ser possível indicar nominalmente entidades no documento para evitar direcionamento. A presidente afastada da Ascam, por sua vez, defendia que a legislação assegurava prioridade às cooperativas e que isso deveria constar de forma efetiva no processo. Ela afirmou que não mantinha esse tipo de interlocução com Renato Purini ou Suéllen Rosim.
Supostos pagamentos e direito ao silêncio
Borgo perguntou ainda se Gisele havia ouvido comentários sobre eventual pagamento de valores a vereadores para a aprovação da concessão. A testemunha inicialmente afirmou que não responderia à questão e mencionou receio em tratar do assunto. Depois, disse que não poderia afirmar algo que não tivesse presenciado e que uma acusação dessa natureza precisaria estar amparada por provas.
A advogada interveio e informou que a resposta poderia repercutir nos fatos investigados pela Operação 'Möbius'. Por essa razão, Gisele exerceu o direito ao silêncio nesse ponto.
A manifestação levou Borgo a perguntar se a testemunha vinha sofrendo ameaças de morte. Gisele negou ter recebido ameaça direta, mas afirmou sentir medo diante do contexto envolvendo o setor de resíduos. "Estamos falando de lixo, lixo é dinheiro", declarou. Ela relacionou o receio à atuação em defesa dos catadores e aos conflitos decorrentes desse trabalho. "Tenho medo, sim. Não tem ameaça", esclareceu.
Defesa da prefeita e perguntas do relator
Questionada pelo advogado de defesa da prefeita, Jeferson Daniel Machado, Gisele disse ter conversado poucas vezes com Suéllen Rosim, principalmente sobre a participação das cooperativas no processo. Também disse não ter presenciado interferência da prefeita, nem qualquer tratativa ilícita envolvendo Suéllen, Cilene Bordezan ou Hamilton Libório Agle durante o processo de concessão.
Entenda os termos:
- Comissão Processante (CP): grupo de vereadores que investiga se uma autoridade cometeu infração político-administrativa e pode levar à cassação do mandato.
- Medida cautelar: decisão judicial provisória, tomada durante a investigação, para evitar prejuízos enquanto o caso é analisado.
- Direito ao silêncio: garantia de que uma pessoa investigada não é obrigada a responder perguntas que possam incriminá-la.
- Prisão preventiva: prisão determinada pela Justiça durante a investigação, sem prazo fixo, quando há risco à ordem ou ao processo.
- Licitação: processo público em que empresas concorrem para ser contratadas pelo poder público.
- Edital: documento que estabelece as regras e exigências de uma licitação.
- Certame: outro nome para a licitação, a disputa entre as empresas concorrentes.
FONTES: Fonte 1: https://www.bauru.sp.leg.br/imprensa/noticias/depoimentos-na-cp-do-lixo-gisele-moretti-diz-que-nao-presenciou-irregularidades-e-responde-sobre-contatos-a-respeito-da-concessao/
Fonte 2: https://sampi.net.br/bauru/noticias/3014989/politica/2026/10/em-depoimento-a-cp-do-lixo-em-bauru-gisele-moretti-relata-medo
