quinta-feira, 5 de novembro de 2026
Política· ⏱ 5 minutos de leitura

Gaeco prende braço financeiro de fraude na licitação do lixo em Bauru

Gaeco prende braço financeiro de fraude na licitação do lixo em Bauru
Gaeco realiza operação para cumprir mandados de busca e apreensão em secretarias de Bauru. Foto: Luís Negrelli—📸 Fonte da imagem: g1 Bauru e Marília [(clique aqui para ver a matéria lá)]

O Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público de São Paulo (MP-SP) deflagrou nesta sexta-feira (23) a terceira fase da Operação Cavalo de Troia, que investiga um suposto esquema de fraude e corrupção na licitação dos serviços de resíduos sólidos de Bauru. Uma pessoa foi presa em São Paulo e equipes cumprem mandados de busca e apreensão na capital paulista, com apoio da Polícia Militar, inclusive do Batalhão de Rota. O alvo foi localizado em São Paulo (SP), onde um carro e duas motos foram apreendidos.

Segundo o MP, a prisão preventiva — medida que mantém o suspeito detido durante a investigação, sem prazo definido — recaiu sobre Jonathan Moga Pinto, apontado como diretor da empresa Core Intermediações e Assessoria LTDA, uma empresa de fachada usada para simular contratos e intermediar vantagens indevidas relacionadas à concessão do manejo de resíduos sólidos no município. Mandados de busca e apreensão também foram cumpridos na sede da firma. A Justiça determinou o bloqueio de bens e ativos no valor de R$ 20 milhões de quatro investigados. A frota de carros e motos do empresário também foi apreendida, incluindo uma motocicleta de alto valor.

A investigação sobre a empresa começou após o cumprimento de mandados na segunda fase da operação, realizada na semana passada, que culminou na prisão do ex-secretário de Governo e marido da prefeita Suéllen Rosim (PSD), Renato Purini. Na ocasião, os investigadores apreenderam uma nota fiscal de R$ 750 mil emitida para a Core Intermediações, citada em mensagens interceptadas entre os suspeitos. A partir da localização do documento fiscal, o Ministério Público aprofundou as diligências sobre a empresa para identificar a origem e o destino do dinheiro.

Em nota, o MP afirmou que "os elementos reunidos até o momento indicam que empresas e contratos aparentemente desprovidos de efetiva causa econômica teriam sido utilizados para conferir aparência de regularidade à transferência de recursos destinados, de forma indireta, a agentes públicos e pessoas por eles indicadas". Ainda de acordo com as investigações, os pagamentos identificados até agora superam R$ 4 milhões. "As transferências teriam sido formalizadas por meio de contratos, notas fiscais e descrições de serviços cuja efetiva prestação ainda é objeto de apuração", destacou o MP. A frente foi aprofundada após a apreensão, na fase anterior da operação, de uma nota fiscal emitida pela empresa que estaria intermediando as propinas. Diligências posteriores identificaram outros pagamentos expressivos em favor da mesma empresa.

A apuração aponta que agentes públicos e representantes de empresas privadas teriam atuado em conjunto para direcionar uma licitação estimada em mais de R$ 5,2 bilhões, com duração prevista de 30 anos. O contrato é considerado o maior já projetado na história de Bauru.

A primeira fase da operação foi realizada em 9 de setembro de 2026. Em 16 de outubro, a segunda etapa levou à prisão do então secretário municipal de Governo, Renato Purini, marido da prefeita Suéllen Rosim (PSD). O Ministério Público apresentou denúncia contra seis investigados na primeira etapa, que se tornaram réus no processo — ou seja, passaram a responder formalmente às acusações na Justiça. A investigação avançou com a análise de materiais apreendidos, mensagens e indícios da participação de outros agentes públicos e particulares. A prefeita Suéllen Rosim depôs na Câmara de Bauru e negou irregularidades.

Conforme detalhado pela reportagem, o esquema funcionava em camadas: a Estre Ambiental contratava a Core Incorporações, empresa de fachada comandada por Jonathan Pinto. Renato Purini indicou o advogado Marcos Caldeira, que era contratado pela Core e não pela Estre. Os pagamentos partiam da Estre, passavam pela Core e pelo advogado Marcos Caldeira, indicado por Renato Purini, e iam parar integralmente nas mãos do ex-secretário. O objetivo era afastar Renato Purini da situação envolvendo as relações entre as empresas. Ele fazia as cobranças quando o pagamento não era feito e entrava em contato com Celina Bordesan. Essas interceptações, contatos e mensagens foram autorizados pela Justiça. A decisão judicial do juiz de garantias Josias, de Bauru, aponta que os pagamentos não teriam ocorrido uma única vez, mas de maneira reiterada, somando os R$ 4 milhões.

Renato Purini está preso na Penitenciária 2 de Potim e já teve compromisso uma videoconferência. Em interrogatório, ele exerceu o direito constitucional ao silêncio: "de acordo com a orientação da minha equipe técnica que tá aqui conosco eu optei por me manter em silêncio nesse momento". Ele foi acompanhado por seis advogados, sendo cinco do escritório da capital e o doutor Jefferson Machado, que já o acompanhava em Bauru.

As apurações tiveram origem em suspeitas relacionadas a ameaças contra catadores de materiais recicláveis em Bauru. O MP investigava possíveis irregularidades envolvendo a Associação dos Catadores de Reciclagem de Bauru (Ascam), que mantinha contratos com a prefeitura para serviços de coleta seletiva. Segundo as investigações, Valdomiro Pereira da Silva Filho, empresário e marido da então presidente da associação, Gisele Moretti, teria utilizado sua influência para intimidar trabalhadores.

A análise de conversas e ligações do casal levou os investigadores a identificar indícios de outras irregularidades, incluindo possíveis pedidos de propina e interferências na futura concessão dos serviços de gestão de resíduos sólidos. As apurações deram origem a duas frentes: a Operação Mobius, sobre possíveis irregularidades em contratos de coleta seletiva, e a Operação Cavalo de Troia, voltada à suspeita de direcionamento da concessão do lixo.

O nome Cavalo de Troia faz referência à principal suspeita investigada: a possível inserção de pessoas com vínculos com a empresa Estre Ambiental em posições estratégicas da administração municipal para influenciar decisões relacionadas à contratação pública. O foco principal é a suspeita de que um grupo formado por agentes públicos, executivos e funcionários de empresas privadas, consultores e intermediários tenha atuado para favorecer a empresa na licitação. De acordo com o MP, o suposto esquema não teria começado com a publicação do edital. A investigação aponta que as irregularidades teriam sido articuladas ainda na fase de preparação do projeto, com possíveis interferências nos estudos técnicos, na modelagem econômica, nos critérios de habilitação e julgamento e na elaboração de documentos administrativos.

Entenda os termos:

  • Prisão preventiva: medida que mantém o suspeito detido durante a investigação, sem prazo definido.
  • Denúncia: acusação formal apresentada pelo Ministério Público à Justiça, que decide se os investigados viram réus.
  • Réus: pessoas que passam a responder formalmente às acusações na Justiça.
  • Licitação: processo pelo qual o poder público escolhe empresas para prestar serviços ou fornecer produtos.
  • Concessão: contrato em que a prefeitura transfere a uma empresa a exploração de um serviço público por determinado período.

FONTES: Fonte 1: https://g1.globo.com/sp/bauru-marilia/noticia/2026/10/23/gaeco-deflagra-3a-fase-da-operacao-cavalo-de-troia-uma-semana-apos-prisao-do-ex-secretario-e-marido-da-prefeita-de-bauru.ghtml

Fonte 2: https://g1.globo.com/sp/bauru-marilia/noticia/2026/10/23/braco-financeiro-do-esquema-de-fraude-na-licitacao-do-lixo-em-bauru-e-preso-na-3a-fase-da-operacao-cavalo-de-troia.ghtml

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