O Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público de São Paulo (MP-SP) deflagrou nesta sexta-feira (23) a terceira fase da Operação Cavalo de Troia, que investiga um suposto esquema de fraude e corrupção na licitação dos serviços de resíduos sólidos de Bauru. Uma pessoa foi presa em São Paulo e equipes cumprem mandados de busca e apreensão na capital paulista, com apoio da Polícia Militar, inclusive do Batalhão de Rota. O alvo foi localizado em São Paulo (SP), onde um carro e duas motos foram apreendidos.
Segundo o MP, a prisão preventiva — medida que mantém o suspeito detido durante a investigação, sem prazo definido — recaiu sobre Jonathan Moga Pinto, apontado como diretor da empresa Core Intermediações e Assessoria LTDA, uma empresa de fachada usada para simular contratos e intermediar vantagens indevidas relacionadas à concessão do manejo de resíduos sólidos no município. Mandados de busca e apreensão também foram cumpridos na sede da firma. A Justiça determinou o bloqueio de bens e ativos no valor de R$ 20 milhões de quatro investigados. A frota de carros e motos do empresário também foi apreendida, incluindo uma motocicleta de alto valor.
A investigação sobre a empresa começou após o cumprimento de mandados na segunda fase da operação, realizada na semana passada, que culminou na prisão do ex-secretário de Governo e marido da prefeita Suéllen Rosim (PSD), Renato Purini. Na ocasião, os investigadores apreenderam uma nota fiscal de R$ 750 mil emitida para a Core Intermediações, citada em mensagens interceptadas entre os suspeitos. A partir da localização do documento fiscal, o Ministério Público aprofundou as diligências sobre a empresa para identificar a origem e o destino do dinheiro.
Em nota, o MP afirmou que "os elementos reunidos até o momento indicam que empresas e contratos aparentemente desprovidos de efetiva causa econômica teriam sido utilizados para conferir aparência de regularidade à transferência de recursos destinados, de forma indireta, a agentes públicos e pessoas por eles indicadas". Ainda de acordo com as investigações, os pagamentos identificados até agora superam R$ 4 milhões. "As transferências teriam sido formalizadas por meio de contratos, notas fiscais e descrições de serviços cuja efetiva prestação ainda é objeto de apuração", destacou o MP. A frente foi aprofundada após a apreensão, na fase anterior da operação, de uma nota fiscal emitida pela empresa que estaria intermediando as propinas. Diligências posteriores identificaram outros pagamentos expressivos em favor da mesma empresa.
A apuração aponta que agentes públicos e representantes de empresas privadas teriam atuado em conjunto para direcionar uma licitação estimada em mais de R$ 5,2 bilhões, com duração prevista de 30 anos. O contrato é considerado o maior já projetado na história de Bauru.
A primeira fase da operação foi realizada em 9 de setembro de 2026. Em 16 de outubro, a segunda etapa levou à prisão do então secretário municipal de Governo, Renato Purini, marido da prefeita Suéllen Rosim (PSD). O Ministério Público apresentou denúncia contra seis investigados na primeira etapa, que se tornaram réus no processo — ou seja, passaram a responder formalmente às acusações na Justiça. A investigação avançou com a análise de materiais apreendidos, mensagens e indícios da participação de outros agentes públicos e particulares. A prefeita Suéllen Rosim depôs na Câmara de Bauru e negou irregularidades.
Conforme detalhado pela reportagem, o esquema funcionava em camadas: a Estre Ambiental contratava a Core Incorporações, empresa de fachada comandada por Jonathan Pinto. Renato Purini indicou o advogado Marcos Caldeira, que era contratado pela Core e não pela Estre. Os pagamentos partiam da Estre, passavam pela Core e pelo advogado Marcos Caldeira, indicado por Renato Purini, e iam parar integralmente nas mãos do ex-secretário. O objetivo era afastar Renato Purini da situação envolvendo as relações entre as empresas. Ele fazia as cobranças quando o pagamento não era feito e entrava em contato com Celina Bordesan. Essas interceptações, contatos e mensagens foram autorizados pela Justiça. A decisão judicial do juiz de garantias Josias, de Bauru, aponta que os pagamentos não teriam ocorrido uma única vez, mas de maneira reiterada, somando os R$ 4 milhões.
Renato Purini está preso na Penitenciária 2 de Potim e já teve compromisso uma videoconferência. Em interrogatório, ele exerceu o direito constitucional ao silêncio: "de acordo com a orientação da minha equipe técnica que tá aqui conosco eu optei por me manter em silêncio nesse momento". Ele foi acompanhado por seis advogados, sendo cinco do escritório da capital e o doutor Jefferson Machado, que já o acompanhava em Bauru.
As apurações tiveram origem em suspeitas relacionadas a ameaças contra catadores de materiais recicláveis em Bauru. O MP investigava possíveis irregularidades envolvendo a Associação dos Catadores de Reciclagem de Bauru (Ascam), que mantinha contratos com a prefeitura para serviços de coleta seletiva. Segundo as investigações, Valdomiro Pereira da Silva Filho, empresário e marido da então presidente da associação, Gisele Moretti, teria utilizado sua influência para intimidar trabalhadores.
A análise de conversas e ligações do casal levou os investigadores a identificar indícios de outras irregularidades, incluindo possíveis pedidos de propina e interferências na futura concessão dos serviços de gestão de resíduos sólidos. As apurações deram origem a duas frentes: a Operação Mobius, sobre possíveis irregularidades em contratos de coleta seletiva, e a Operação Cavalo de Troia, voltada à suspeita de direcionamento da concessão do lixo.
O nome Cavalo de Troia faz referência à principal suspeita investigada: a possível inserção de pessoas com vínculos com a empresa Estre Ambiental em posições estratégicas da administração municipal para influenciar decisões relacionadas à contratação pública. O foco principal é a suspeita de que um grupo formado por agentes públicos, executivos e funcionários de empresas privadas, consultores e intermediários tenha atuado para favorecer a empresa na licitação. De acordo com o MP, o suposto esquema não teria começado com a publicação do edital. A investigação aponta que as irregularidades teriam sido articuladas ainda na fase de preparação do projeto, com possíveis interferências nos estudos técnicos, na modelagem econômica, nos critérios de habilitação e julgamento e na elaboração de documentos administrativos.
Entenda os termos:
- Prisão preventiva: medida que mantém o suspeito detido durante a investigação, sem prazo definido.
- Denúncia: acusação formal apresentada pelo Ministério Público à Justiça, que decide se os investigados viram réus.
- Réus: pessoas que passam a responder formalmente às acusações na Justiça.
- Licitação: processo pelo qual o poder público escolhe empresas para prestar serviços ou fornecer produtos.
- Concessão: contrato em que a prefeitura transfere a uma empresa a exploração de um serviço público por determinado período.
FONTES: Fonte 1: https://g1.globo.com/sp/bauru-marilia/noticia/2026/10/23/gaeco-deflagra-3a-fase-da-operacao-cavalo-de-troia-uma-semana-apos-prisao-do-ex-secretario-e-marido-da-prefeita-de-bauru.ghtml
Fonte 2: https://g1.globo.com/sp/bauru-marilia/noticia/2026/10/23/braco-financeiro-do-esquema-de-fraude-na-licitacao-do-lixo-em-bauru-e-preso-na-3a-fase-da-operacao-cavalo-de-troia.ghtml
