quinta-feira, 5 de novembro de 2026
Política· ⏱ 6 minutos de leitura

Gaeco aponta R$ 4,1 milhões em repasses e novo desdobramento em Bauru

Gaeco aponta R$ 4,1 milhões em repasses e novo desdobramento em Bauru
Documento do Ministério Público que embasa as investigações da Operação Cavalo de Troia. Reprodução/g1 Bauru e Marília—📸 Fonte da imagem: g1 Bauru e Marília [(clique aqui para ver a matéria lá)]

O Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), órgão do Ministério Público de São Paulo que investiga organizações criminosas, detalhou pagamentos de R$ 4,113 milhões feitos pela Estre Ambiental à empresa Core Intermediações e Assessoria. Na investigação da Operação Cavalo de Troia, a Core é apontada como ligada a Renato Purini, ex-secretário municipal de Governo de Bauru e marido da prefeita Suéllen Rosim (PSD).

Os dados foram apresentados em uma manifestação contrária à revogação da prisão preventiva de Purini. A prisão preventiva é a medida que mantém o investigado detido durante o processo, por decisão da Justiça, sem prazo definido. O Gaeco se posicionou pela manutenção da prisão, citando os repasses e as relações entre os envolvidos como elementos relevantes para a apuração. As suspeitas ainda dependem de apuração e de eventual comprovação judicial.

Segundo o Ministério Público, os repasses foram feitos entre dezembro de 2025 e setembro de 2026, na véspera da deflagração da primeira fase da operação, por meio de notas fiscais ligadas a diferentes contratos de consultoria. Para os investigadores, as transações indicam um fluxo financeiro contínuo e estruturado, e não pagamentos isolados à empresa, e podem ter integrado um mecanismo de repasse de propina relacionado à concessão do lixo.

Os documentos apontam pagamentos entre 8 de dezembro de 2025 e 27 de agosto de 2026. Há também uma nota emitida em 8 de setembro, mas os investigadores não localizaram a baixa desse documento.

Pagamento coincide com votação

Um dos pontos destacados é a coincidência entre a data de um pagamento e a tramitação decisiva do projeto de concessão dos resíduos sólidos na Câmara Municipal de Bauru. Conforme a manifestação, uma nota fiscal de R$ 750 mil foi emitida em 5 de dezembro de 2025 e paga no dia 8 daquele mês. Na mesma data, começou a sessão extraordinária da Câmara que tinha como principal item da pauta o projeto de lei relacionado à concessão.

A discussão se estendeu por aproximadamente 16 horas. Na primeira votação, a proposta foi aprovada por 11 votos favoráveis e 9 contrários. A segunda discussão ocorreu em 10 de dezembro, quando o projeto foi aprovado. Na ocasião, Purini, então secretário de Governo, comandou as articulações em torno da proposta e, segundo o apurado pelo Gaeco, cobrou a permanência dos vereadores no plenário para garantir quórum durante a discussão e os votos necessários à aprovação, que se deu por margem apertada.

A investigação procura esclarecer se os pagamentos guardam relação com a tramitação do projeto, ou seja, se houve vereador que recebeu propina para aprovar o projeto de lei autorizativo da concessão do lixo. A coincidência entre o pagamento e a votação é um dos elementos que chamam a atenção na manifestação do MP, mas, isoladamente, não comprova que o dinheiro tenha sido utilizado para influenciar vereadores ou determinar o resultado da votação.

Camadas de repasses

Conforme os investigadores, a Estre Ambiental transferiu os valores à Core, empresa que seria utilizada como intermediária. Jonathan Moga Pinto aparece como responsável pela estrutura empresarial, descrito na investigação como possível interposto, isto é, alguém que pode ter servido de nome para encobrir os verdadeiros responsáveis.

Ainda segundo a manifestação, Purini teria indicado um advogado, que teria emitido notas fiscais referentes a serviços jurídicos destinados à Core. O Ministério Público procura esclarecer a finalidade efetiva desses serviços, a destinação dos recursos e os eventuais beneficiários finais.

A investigação apura a suspeita de que a Core tenha sido usada como intermediária para que o ex-secretário recebesse vantagens indevidas. As conclusões apresentadas nos documentos fazem parte de apurações que ainda estão em curso.

Renato Purini foi preso em 16 de outubro e está na Penitenciária II de Potim, no Vale do Paraíba. Ele pediu para sair da prisão, mas o pedido não foi aceito, e também solicitou transferência, que não foi concedida; ele continua detido. A reportagem procurou a defesa do ex-secretário, mas não obteve resposta até a publicação.

Terceira fase da operação

Em 23 de outubro, a terceira fase da Operação Cavalo de Troia cumpriu mandados de busca e apreensão em São Paulo e prendeu Jonathan Moga Pinto, diretor da Core. Segundo o Gaeco, o objetivo foi atingir o braço financeiro da suposta organização criada para fraudar a licitação.

De acordo com o Ministério Público, a Core foi criada em agosto de 2025 por Kauê Tadeu Daher Crudeli, com capital reduzido e sem nenhum funcionário registrado. Inicialmente cadastrada para consultoria em gestão empresarial, a firma depois acrescentou serviços de seguros, previdência e saúde.

A promotoria apontou que a empresa e seu fundador mantinham vínculos diretos com o advogado Marcos Libanore Caldeira, apontado como intermediário dos repasses feitos pela concessionária Estre Ambiental a Renato Purini.

"A constituição recente da empresa, o reduzido capital social, a ausência de funcionários e a falta de correspondência aparente entre as atividades dos responsáveis e o serviço descrito no documento fiscal são elementos suspeitos que reforçam a incompatibilidade entre o serviço contratado e a empresa", justificou o órgão.

Segundo as investigações, Jonathan Moga Pinto assumiu a direção da empresa em dezembro de 2025, período que coincide com reuniões estratégicas entre os envolvidos no esquema. Documentos mostram que ele assinou como titular da firma em 19 de dezembro, mesma data em que a Estre Ambiental efetuou repasses de R$ 750 mil e R$ 225 mil à Core.

Os valores suspeitos identificados pela investigação superam R$ 4 milhões, por meio de contratos e notas fiscais cuja prestação de serviço nunca foi comprovada. Para o MP, a estrutura empresarial foi montada para a "simulação de contratações e emissão de notas fiscais representativas de serviços não prestados".

Comissão processante e novas testemunhas

Na Câmara Municipal de Bauru, uma comissão processante do lixo ouviu novas testemunhas. O vereador Márcio Teixeira, que apresentou uma das primeiras denúncias, afirmou que já vinha alertando sobre a movimentação da concessão do lixo há mais de um ano. Segundo ele, quando a licitação foi para a praça, ou seja, aberta à concorrência, entrou com representação no Ministério Público e no Tribunal de Contas, que suspendeu a licitação.

O vereador disse que a operação desmantelou uma organização criminosa que estaria instalada dentro da prefeitura de Bauru. Ele afirmou que oito pessoas foram presas e uma está foragida, e que acredita que novas fases da operação virão. "É um processo muito grande", declarou, acrescentando que também denunciou outros contratos de outras secretarias.

Sobre a comissão processante, Márcio Teixeira explicou que se trata de um ato político da Câmara, que tem 90 dias para decidir se cassa ou não o mandato. Segundo ele, o processo está em cerca de 40 dias. O vereador também comentou a aprovação pela Câmara do plebiscito sobre a terceirização da água em Bauru e negou relação direta com as suspeitas da licitação do lixo.

A investigação do Gaeco também aponta que os repasses suspeitos teriam sido feitos por uma empresa beneficiada no contrato de R$ 5,2 bilhões e transferidos para uma empresa de fachada, com possível destino a integrantes do grupo investigado. O Ministério Público apura se o dinheiro comprou influência em decisões públicas.

Entenda os termos:

  • Prisão preventiva: medida que mantém o investigado detido durante o processo, por decisão da Justiça, sem prazo definido.
  • Interposto: pessoa que pode ter servido de nome para encobrir os verdadeiros responsáveis.
  • Comissão processante: ato político da Câmara que ouve testemunhas e tem prazo para decidir se cassa ou não um mandato.
  • Poder discricionário: poder de tomar decisões próprias de acordo com a oportunidade.

FONTES: Fonte 1: https://g1.globo.com/sp/bauru-marilia/noticia/2026/10/27/mp-aponta-pagamentos-de-quase-r-4-milhoes-a-empresa-ligada-a-ex-secretario-e-marido-da-prefeita-preso-em-bauru.ghtml

Fonte 2: https://www.youtube.com/watch?v=CpgYMIPIiDw

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