A Prefeitura de Bauru exonerou nesta sexta-feira (16/10) o secretário municipal de Governo, Renato Purini, marido da prefeita Suéllen Rosim (PSD). A decisão foi comunicada em nota à imprensa na manhã desta sexta-feira, depois que o próprio Purini foi preso pelo Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público de São Paulo (MPSP), durante nova fase da Operação Cavalo de Troia. A prefeita também exonerou, anteriormente, outros três investigados: os ex-secretários municipais Cilene Bordezan, Vitor Costa e Sara Moura.
No comunicado, a administração municipal afirmou que tem colaborado integralmente com as autoridades desde o início das investigações e que forneceu documentos, informações e os esclarecimentos solicitados. "Diante das informações tornadas públicas nesta manhã e das medidas em curso, a prefeitura comunicou que o secretário municipal de Governo, Renato Purini, foi exonerado do cargo", diz o texto. A prefeitura acrescentou que seguirá contribuindo com tudo o que for necessário para o avanço das apurações e que continuará atuando com transparência e responsabilidade, adotando as medidas necessárias para preservar o interesse público, a regularidade administrativa e a confiança da população.
A prisão de Purini ocorreu na manhã desta sexta-feira, durante operação que também cumpriu mandados de busca e apreensão na residência do casal, em um condomínio de alto padrão, na sede da Prefeitura e em endereços na capital paulista, com apoio da Polícia Militar. Purini, algemado, acompanhou a equipe durante as buscas no prédio da administração municipal.
Após deixar a residência, Renato Purini foi levado para a Prefeitura, onde o Gaeco cumpriu mandados de busca e apreensão, e depois encaminhado para a Central de Polícia Judiciária. Ele passou por audiência de custódia ainda nesta manhã e teve a prisão preventiva confirmada, sendo levado para o Centro de Detenção Provisória de Bauru. A audiência de custódia é a apresentação do preso a um juiz, que verifica a legalidade da prisão e decide se ela é mantida. A prisão preventiva é a prisão sem prazo definido, usada quando a Justiça entende que o investigado pode atrapalhar o processo ou representar risco.
No início da manhã, servidores e funcionários foram impedidos de entrar no prédio da Prefeitura, mas após a saída da equipe, foi permitida a entrada de todos, que retomaram os trabalhos normalmente.
A ação é um desdobramento da Operação Cavalo de Troia, deflagrada no início de setembro, que investiga um esquema de fraude na concessão do sistema de gestão integrada dos resíduos sólidos urbanos (coleta e destinação de lixo) pela Prefeitura de Bauru. A prefeita Suéllen Rosim não está entre os alvos da operação.
Segundo o Ministério Público, o esquema tinha o objetivo de direcionar as regras do edital a favor da empresa Estre Ambiental. A investigação aponta que a então secretária municipal de Meio Ambiente, Cilene Bordezan, mantinha um relacionamento amoroso com o diretor-executivo da empresa, Hamilton Libório Agle, o que permitia que a concessionária elaborasse documentos oficiais de dentro do governo.
A apuração começou em março a partir de denúncias de ameaças contra catadores de materiais recicláveis da Ascam. Segundo as investigações, Valdomiro Pereira da Silva Filho, marido da então presidente da Ascam, tinha ligação com uma facção criminosa e usava a influência para intimidar os trabalhadores da Associação dos Catadores de Materiais Recicláveis, que mantinha contratos de mais de R$ 5 milhões com a Prefeitura de Bauru com dispensa de licitação. A dispensa de licitação é quando a prefeitura contrata sem concorrência pública.
A partir do monitoramento de ligações de Valdomiro e da esposa dele, Gisele Moretti, presidente da associação, o Ministério Público descobriu que o casal também articulava esquemas para pedir propinas e interferir na licitação da gestão do lixo na cidade. A interceptação das conversas revelou a participação de secretários municipais e executivos de empresas, o que levou à deflagração de duas operações paralelas promovidas pelo Gaeco com o apoio da Polícia Militar.
A contratação tem previsão de durar 30 anos, com valor global estimado em cerca de R$ 5,2 bilhões em números de fevereiro de 2026. Trata-se da maior contratação pública já projetada na história de Bauru. A licitação, no entanto, já foi cancelada.
Elementos reunidos na investigação indicam que o esquema teria sido construído por camadas. Primeiro, a concepção da concessão e a elaboração dos estudos técnicos. Depois, a definição das exigências de habilitação e pontuação, passando pela contratação de consultorias, a preparação de documentos oficiais, além da reação diante de impugnações e potenciais concorrentes. A finalidade era assegurar vantagem indevida à empresa investigada.
As apurações apontam, ainda, a existência de um núcleo formado por agentes públicos, dirigentes e funcionários da empresa privada, consultores e intermediários, com divisão de funções e atuação coordenada. O MPSP também identificou indícios de pagamentos e vantagens para reduzir a competição e garantir o direcionamento da licitação, além da cooptação de agentes públicos para neutralizar mecanismos de controles. A investigação mira também possíveis ajustes com vereadores.
"Os investigados chegaram a levantar informações pessoais de um conselheiro do Tribunal de Contas do Estado de São Paulo, supostamente relacionado à relatoria de procedimento naquele órgão", afirmou o órgão.
A nova fase da Cavalo de Troia decorre da evolução na análise de provas obtidas durante sua primeira etapa, especialmente das mensagens extraídas de aparelhos celulares apreendidos. Elas revelaram indícios da participação de outros agentes públicos e particulares nas práticas investigadas. As investigações prosseguem, inclusive para a apuração de outros possíveis delitos e a identificação de eventuais participantes ainda não alcançados pelas medidas judiciais.
Pressão política e depoimento à CP do Lixo
Na tarde desta sexta-feira, a prefeita Suéllen Rosim prestou longo depoimento à Comissão Processante (CP) do Lixo, na Câmara Municipal. A CP é uma comissão de vereadores que investiga a conduta da prefeita e pode levar a um pedido de cassação. Segundo a prefeita, ela não foi alertada de irregularidades.
A situação de Suéllen é de pressão dobrada: ela enfrenta duas frentes, a investigação criminal que alcançou até o marido e a CP. Purini ocupava uma posição estratégica no governo, com acesso direto às principais decisões administrativas e políticas. A proximidade pessoal e funcional, contudo, não comprova, juridicamente, por si só, a participação ou conhecimento de Suéllen em eventuais crimes.
O advogado e ex-deputado Carlos Braga, que participou do programa Café com Política (tradução livre: café da manhã com política), opinou que a situação política da prefeita se agravou e avaliou que a permanência dela no cargo se torna insustentável. Trata-se de uma avaliação política, não de uma conclusão jurídica, frisou Braga. Uma eventual cassação depende das acusações examinadas, das provas e da votação dos vereadores. A prisão do secretário, isoladamente, não determina a perda do mandato.
A crise atual pode ser comparada a episódios políticos vividos por Bauru no final da década de 1990. Os jornalistas do Café com Política manifestaram preocupação com a imagem, o desenvolvimento da cidade e a confiança nas instituições. Com pouco mais de dois anos de mandato pela frente, Suéllen pode enfrentar um período prolongado de desgaste, caso as investigações continuem produzindo novos desdobramentos.
A Lei Orgânica de Bauru determina que, em caso de cassação da prefeita, quem assume o governo é o vice-prefeito Orlando Costa Dias. Ele já havia dito, em outro momento, a interlocutores, que, se ocorresse tal hipótese, finalizaria o mandato-tampão e não seria mais candidato a prefeito em 2028.
Entenda os termos:
- Audiência de custódia: apresentação do preso a um juiz, que verifica a legalidade da prisão e decide se ela é mantida.
- Prisão preventiva: prisão sem prazo definido, usada quando a Justiça entende que o investigado pode atrapalhar o processo ou representar risco.
- Dispensa de licitação: quando a prefeitura contrata sem concorrência pública.
- Comissão Processante (CP): comissão de vereadores que investiga a conduta da prefeita e pode levar a um pedido de cassação.
- Lei Orgânica: lei fundamental do município, que define o funcionamento do governo local.
FONTES: Fonte 1: https://www.metropoles.com/sao-paulo/operacao-mpsp-bauru-prefeitura
Fonte 2: https://sampi.net.br/bauru/noticias/3012145/entrelinhas/2026/10/prisao-de-purini-e-cp-levam-governo-a-ebulicao-maxima-em-bauru-
