O ex-secretário de Governo de Bauru e marido da prefeita Suéllen Rosim (PSD), Renato Purini, foi transferido na tarde desta quarta-feira (21) para a Penitenciária II de Potim, no Vale do Paraíba. A informação foi confirmada pelo g1 Bauru e Marília.
Purini havia sido preso no dia 16 de outubro, durante a segunda fase da Operação Cavalo de Troia, deflagrada pelo Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado, equipe do Ministério Público que investiga crimes graves e organizações criminosas). A operação apura fraudes na licitação do lixo de Bauru.
Na ação, o Ministério Público cumpriu mandados de busca na residência da chefe do Executivo e na sede da prefeitura. A prefeita não é alvo desta fase das investigações. Após o cumprimento do mandado de prisão, Suéllen exonerou o marido do cargo de secretário de Governo.
A defesa do ex-secretário pediu a liberdade dele, mas o habeas corpus (instrumento jurídico usado para questionar uma prisão e pedir a soltura) foi negado pelo Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo (TJ-SP) no dia 17 de outubro. A decisão, assinada no plantão judiciário pelo desembargador Luiz Fernando Vaggione, manteve a prisão preventiva — aquela que mantém o investigado detido durante as apurações, sem prazo de julgamento definido.
No pedido de liminar, a defesa sustentou que a prisão preventiva não tinha fundamentação adequada, alegando que não havia demonstração de risco à liberdade e que medidas cautelares alternativas seriam suficientes. O relator, porém, indeferiu a soltura provisória e destacou a gravidade dos fatos apurados na operação.
Segundo o desembargador, escutas, registros telefônicos e mensagens obtidos com autorização judicial indicam que o ex-secretário usou o cargo público para interferir em licitações, atuando no monitoramento e na coação de parlamentares municipais para conseguir a aprovação do projeto que favorecia a Estre Ambiental. A decisão apontou ainda indícios de que ele solicitou e recebeu vantagens financeiras indevidas.
Investigação sobre tentativa de fuga
O Ministério Público também apura se Purini adotou condutas para tentar fugir ou se esquivar da ação policial antes de ser preso. Um documento ao qual a TV TEM teve acesso revela que ele saiu de casa e circulou de carro por ruas próximas às sedes do Ministério Público e da Prefeitura na madrugada em que o mandado foi cumprido.
O documento aponta ainda que o investigado trocou de aparelho celular logo após a deflagração da primeira etapa da operação, realizada no início de setembro. Para o MP, a troca isoladamente não significa destruição de provas, mas a cronologia da substituição e a natureza das condutas e comunicações interceptadas indicam que o caso deve ser investigado.
Purini foi abordado por equipes policiais em via pública, na Avenida Getúlio Vargas, onde cumpriu o mandado de prisão. Os agentes o identificaram saindo da residência em que mora com a prefeita e o acompanharam durante o trajeto até a abordagem. Na sequência, os policiais foram com ele até a casa do casal e, depois, à sede da prefeitura, onde também foram cumpridos mandados de busca e apreensão.
A apuração indica que Purini não chegou a entrar em nenhum dos estabelecimentos durante a madrugada, mas o comportamento é investigado sob a suspeita de tentar se antecipar à atuação policial e dificultar a efetividade das medidas.
Esquema de repasses
Segundo as investigações, mensagens interceptadas indicam que Purini teria recebido pagamentos da Estre Ambiental para articular apoio político e influenciar os bastidores da votação do projeto na Câmara Municipal. O MP apontou que ele atuava como a "figura política" necessária para a organização criminosa garantir a aprovação do projeto de concessão do lixo.
De acordo com o Ministério Público, os supostos repasses eram feitos por meio de um intermediário, numa tentativa de ocultar a origem e a finalidade do dinheiro. A Estre transferia valores ao advogado Marcos Libanore Caldeira sob a justificativa de pagamentos por serviços jurídicos. Depois, segundo a investigação, o advogado repassava as quantias ao ex-secretário.
Em uma das conversas interceptadas, em 2025, Purini enviou o contato do advogado à então secretária municipal do Meio Ambiente, Cilene Chabuh Bordezan, e reclamou que ninguém havia procurado o defensor. Cilene encaminhou a mensagem ao CEO da Estre Ambiental, Hamilton Libório Agle, que se identificou como amigo do marido da prefeita e marcou um encontro com o advogado.
A investigação identificou que a Estre chegou a emitir uma nota fiscal de R$ 750 mil para o escritório do advogado. Para o Gaeco, há indícios de que o pagamento não foi um episódio isolado, mas parte de uma remuneração recorrente que teria como destinatário final Purini.
A operação apura suspeitas de fraude no projeto de concessão de resíduos sólidos estimado em R$ 5,2 bilhões. Segundo a decisão do TJ-SP, Purini é investigado por suspeita de integrar organização criminosa, corrupção passiva, corrupção ativa de agentes políticos, falsidade documental e fraude a licitações.
Em nota, a assessoria jurídica da prefeita Suéllen Rosim informou que adotou todas as medidas administrativas necessárias, pautando suas decisões pela responsabilidade, transparência e imparcialidade. Ela afirmou ainda que confia no esclarecimento dos fatos em momento oportuno e que seguirá cumprindo suas funções à frente do município.
Entenda os termos:
- Habeas corpus: pedido judicial usado para questionar uma prisão e tentar obter a soltura.
- Prisão preventiva: detenção durante a investigação, decidida pela Justiça para garantir o andamento do caso.
- Gaeco: grupo do Ministério Público que investiga organizações criminosas e crimes graves.
- Licitação: processo pelo qual o poder público escolhe empresas para prestar serviços ou fornecer produtos.
- Concessão: modelo em que a prefeitura transfere à iniciativa privada a exploração de um serviço público por contrato.
A transferência de Purini para uma penitenciária fora da região marca mais um capítulo do caso que envolve o alto escalão da administração de Bauru e o contrato bilionário do lixo, tema que deve continuar acompanhado pela Câmara Municipal e pela Justiça nos próximos meses.

