quinta-feira, 5 de novembro de 2026
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Zamboni diz à CP do Lixo que ele e prefeita não tinham conhecimento técnico para avaliar pareceres da Fipe

Zamboni diz à CP do Lixo que ele e prefeita não tinham conhecimento técnico para avaliar pareceres da Fipe
Reprodução/bauru.sp.leg.br—📸 Fonte da imagem: bauru.sp.leg.br [(clique aqui para ver a matéria lá)]

A Comissão Processante (CP) do Lixo da Câmara Municipal de Bauru ouviu nesta quarta-feira (28/10) o depoimento do secretário municipal de Administração, Cristiano Ricardo Zamboni, como testemunha de acusação no processo que apura se a prefeita Suéllen Rosim (PSD) cometeu três infrações político-administrativas na condução da concessão dos serviços de resíduos sólidos (processo n.º 225/2026). A comissão é um colegiado formado por vereadores para investigar e julgar denúncias contra agentes políticos.

Desde junho de 2026, Zamboni ocupa a função de presidente da Comissão de Contratação da Concessão do Lixo, grupo criado para receber, encaminhar e julgar a documentação e as propostas dos participantes da licitação. O depoimento foi conduzido pelo vereador Eduardo Borgo (Novo), autor da denúncia que deu origem à CP, e pelo relator Junior Lokadora (Podemos).

Zamboni explicou que a Fipe (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas) foi contratada inicialmente para prestar consultoria à Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Bem-Estar Animal na elaboração do projeto de manejo dos resíduos sólidos de Bauru. Depois, a fundação passou a dar apoio técnico ao processo licitatório, auxiliando a Comissão de Contratação na elaboração de respostas a impugnações ao edital e a recursos de licitantes. Impugnação é o pedido formal para contestar ou alterar os termos de um edital de licitação.

Segundo o secretário, ele mantinha contato regular com Mário Luiz Silvério, consultor e técnico ligado à Fipe investigado na Operação Cavalo de Troia, porque Silvério era o representante da fundação. As conversas ocorriam por e-mail e WhatsApp.

Impugnações e atuação da prefeita

Um dos pedidos de impugnação ao edital foi feito pelo especialista ambiental Ricardo Crepaldi em agosto. De caráter administrativo, o pedido foi encaminhado à Prefeitura. Zamboni relatou que a impugnação chegou ao e-mail da Comissão de Contratação em um domingo. No dia seguinte, comunicou a prefeita Suéllen Rosim sobre o recurso e avisou que o encaminharia ao consultor da Fipe.

Após o consultor elaborar a resposta, que não acatou os apontamentos de Crepaldi, Zamboni disse que enviou o documento por WhatsApp para Elisangela Cardoso do Prado Pereira, assessora direta da prefeita, e telefonou para a chefe do Executivo para informá-la sobre o envio. Antes disso, avaliou o parecer elaborado por Mário Silvério e não fez alterações significativas no texto. Segundo ele, apenas acrescentou na redação que sua manifestação final estava sendo feita com base no parecer técnico da Fipe, o que também foi informado à prefeita.

Depois que Suéllen assinou o documento e o recebeu por meio de Elisângela, Zamboni afirmou que publicou o documento no site da Prefeitura e encaminhou a resposta a Crepaldi.

“Borgo questionou Zamboni, em mais de uma ocasião, sobre sua capacidade e a da prefeita de avaliar tecnicamente o parecer da Fipe. A testemunha respondeu que foi justamente a falta de conhecimento sobre o objeto da concessão — a gestão dos resíduos sólidos — que levou à contratação da fundação. Por isso, tanto ele quanto a prefeita seguiam rigorosamente o que o consultor indicava. Indagado se não percebeu irregularidades no edital, Zamboni disse que não e acrescentou: "Eu concordei integralmente com o parecer da Fipe".”

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Novas representações de Ricardo Crepaldi e do vereador Márcio Teixeira (PL) apresentadas ao Tribunal de Contas do Estado de São Paulo (TCE-SP) motivaram uma liminar do conselheiro Wagner de Campos Rosário que suspendeu pela segunda vez o processo licitatório em agosto. Liminar é uma decisão provisória tomada antes do julgamento final. Zamboni contou que soube da impugnação após receber um e-mail do TCE-SP, comunicou a prefeita por telefone e acionou Mário Silvério para responder aos apontamentos técnicos do órgão.

Após a devolutiva do consultor, a testemunha disse que assinou o documento que seria encaminhado ao Tribunal de Contas e deu ciência dele à prefeita antes de enviar a resposta ao TCE-SP. Desta vez, o posicionamento da Fipe mudou, reconhecendo os problemas listados pelo órgão de controle. Logo depois foi deflagrada a Operação Cavalo de Troia e o edital foi suspenso definitivamente.

Questionado por Borgo, Zamboni afirmou que não conseguiu perceber a gravidade dos apontamentos a partir do parecer da Fipe, porque era extremamente técnico. A constatação veio apenas com a manifestação do Tribunal de Contas, segundo ele. O secretário ainda teve dificuldade para precisar a cronologia entre o acionamento da Fipe diante das impugnações e os encaminhamentos feitos à prefeita. A situação levou Borgo a consultar a Procuradoria Legislativa da Câmara sobre a possibilidade de prisão da testemunha em caso de falso testemunho.

O advogado da prefeita, Jeferson Daniel Machado, apontou ao presidente do colegiado, o vereador Miltinho Sardin (PSD), que Borgo estaria coagindo a testemunha. Seguiu-se um embate entre o advogado e o denunciante, o que levou à suspensão temporária da reunião.

Cilene, Estre e Purini

Eduardo Borgo também questionou sobre eventual interferência de Cilene Chabuh Bordezan e Renato Purini nas respostas elaboradas pela Fipe para as impugnações. Zamboni afirmou que não falou com eles sobre o assunto. Em resposta ao relator Junior Lokadora, a testemunha disse que não sabe se Bordezan participou da elaboração dos estudos que embasaram o edital da concessão.

Zamboni ainda alegou que não conhece Hamilton Libório Agle, ex-CEO da Estre Ambiental preso na Operação Cavalo de Troia, nem Gisele Moretti, presidente afastada da Ascam (Associação dos Catadores de Materiais Recicláveis de Bauru e Região) e investigada na Operação Mobius.

Indagação da defesa

O advogado Jeferson Daniel Machado abordou a motivação para a contratação da Fipe e a relação de Zamboni com Mário Silvério. A testemunha afirmou que, pela complexidade do processo licitatório, entende que a Secretaria Municipal de Meio Ambiente decidiu firmar contrato com a fundação para ter o apoio técnico necessário na elaboração do edital. Sobre a relação com Silvério, disse que se restringiu à esfera institucional, uma vez que ele era o representante da Fipe.

O advogado também explorou a atuação da prefeita no processo licitatório, perguntando se Zamboni percebeu alguma atitude ou decisão suspeita por parte de Suéllen Rosim. Ele respondeu que não e reiterou que, assim como ele, a prefeita seguia os pareceres da Fipe. "Nem eu, nem ela teríamos capacidade técnica de avaliar", disse, alegando em seguida que também não percebeu condutas irregulares de Silvério.

Depoimentos desta quarta-feira (28/10)

Além de Cristiano Zamboni, a CP do Lixo ouviu cinco depoentes ao longo desta quarta-feira:

  • Ricardo Crepaldi, ex-presidente do Conselho Municipal de Meio Ambiente e autor de denúncia apresentada ao TCE-SP sobre a concessão;
  • Elton Johnny Petini, gerente de Licitações e Contratos da Prefeitura de Bauru;
  • Guilherme Rodrigues de Melo, agente social da Prefeitura de Bauru;
  • Gisele Moretti, presidente afastada da Ascam e investigada na Operação Mobius.

A Comissão Processante apura três possíveis infrações político-administrativas atribuídas à prefeita Suéllen Rosim relacionadas à condução da concessão dos serviços de resíduos sólidos. A denúncia trata do fornecimento de informações solicitadas pela Câmara, de mecanismos de governança e controle adotados durante o processo e de eventual omissão ou negligência na defesa dos interesses do município.

Entenda os termos:

  • Comissão Processante (CP): colegiado de vereadores que investiga e julga denúncias contra agentes políticos, com poder de recomendar cassação.
  • Impugnação: pedido formal para contestar ou alterar termos de um edital de licitação.
  • Liminar: decisão provisória tomada por um juiz ou tribunal antes do julgamento final do caso.
  • Operação Cavalo de Troia: operação policial que investiga irregularidades na concessão do lixo e resultou na prisão de ex-secretários.
  • Operação Mobius: outra investigação que apura condutas de envolvidos no setor de resíduos.
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